
Psicose
Helenice costumava sonhar. Dormindo ou acordada. Desde mocinha. Seus pais contavam que ela adorava narrar seus sonhos, bons ou ruins.
Os pesadelos mesmo começaram a partir dos vinte e poucos anos. Clássicos, como cair em buracos, despencar de prédios, ficar presa em recintos escuros, afogar-se ou assombrada entre fantasmas.
No início não se deu tanta importância, Helenice era assim mesmo, pessoa ansiosa e com muita imaginação.
Com o passar dos sonhos, um pesadelo se tornava recorrente: era possuída por um homem sem face que lhe morria em cima. Sem conseguir se desvencilhar do corpo, aflita, quase sem respirar, acordava coberta de suor e medo.
Procurou ajuda na terapia. Havia teorias diversas sobre os sonhos, expressão do inconsciente e de experiências mal ou bem resolvidas.
A terapeuta ouvia o relato dos seus pesadelos, procedendo com algumas anotações num bloco.
— Talvez eu tenha medo do invisível, quem sabe bloqueio sexual, ansiedade ou algum tipo de sufocamento psíquico.
A terapeuta ouvia calada e, quando comentava algo, era sucinta.
— Os sonhos podem traduzir insatisfações e memórias de fatos ocorridos.
Helenice aceitava as insatisfações, embora discordasse do “memória de fatos ocorridos”. Nunca ninguém morrera em cima dela. Ainda mais, durante uma relação sexual.
O que incomodava mais Helenice era a aterradora sensação de não conseguir respirar com o peso de um morto sobre ela.
— O que você pensa sobre a morte?
Helenice não entendeu a associação dos pesadelos com a morte. Mas a terapeuta deveria saber o que dizia. Admitiu nunca ter parado para pensar sobre a finitude humana.
A cada sessão, Helenice trazia uma novidade. Os pesadelos traziam agora sobre ela um gorila. Helenice sentia-se menos aflita. Adorava animais. Escondeu de todos, até da terapeuta, mas simpatizava mais com o gorila do que com o tal homem sem face. O gorila parecia mais humano.
Helenice começou a se acostumar com seu pesadelo. O gorila em cima já não lhe pesava tanto. Afastava sua cabeçorra inerte e conseguia respirar um fiapo de ar. Ainda assim, acordava sempre nessa hora.
A terapeuta seguia calada e anotava os possíveis significados inconscientes daqueles pesadelos.
Helenice notou que ela passou a olhá-la de forma estranha. Temeu que a terapeuta lhe perguntasse se já havia transado com um macaco.
— Você consegue ter orgasmos?
Não eram múltiplos, se encaixavam mais no grupo de raros ou ocasionais.
— Se masturba com frequência?
Tinha um vibrador, cujo nome era Otávio.
As sessões prosseguiam. Na noite anterior em que tinha exagerado na vodca, Helenice sonhou que transava com uma espécie de lagarto asqueroso, enorme.
— Posso lhe receitar alguns remédios.
Helenice começou a cogitar a hipótese de encerrar o tratamento.
Mudou de ideia após o retorno dos pesadelos. Agora, um extra-terrestre a penetrava com um pênis longo e verde, para depois morrer sobre ela, emitindo sons agudos e inarticulados. Helenice destacou que sentira a ejaculação do ET. Era quase real.
A terapeuta ponderou que o membro longo e esverdeado do alienígena podia revelar mecanismos intrínsecos do imaginário sobre prazer e sexo. O esperma do alienígena podia ressignificar seu desejo de engravidar.
Helenice concluía que a terapeuta também tinha problemas.
— Interessante, há aqui uma coincidente sucessão de filmes: “Homem Sem Face”, “Na Montanha com os Gorilas”, “Godzilla”, agora um ET…
Com certeza a terapeuta devia achar que ela estivesse inventando tudo aquilo. Uma cinéfila pervertida ou debochada.
A cada sessão, Helenice vinha com novos pesadelos. Agora era com o Homem-Aranha. Menos mal que não ejaculava. A terapeuta pareceu estar perdendo a paciência.
— Se eu fosse você parava de ir tanto ao cinema.
Helenice abandonaria o tratamento. Lidaria sozinha com seus pesadelos e transtornos. Antes só que mal analisada.
Passado um tempo, numa noite sonhou com a terapeuta por cima dela, segurando uma faca, como no filme de Hitchcock. Era Helenice que agora perdia a vida.























